Talvez a notícia de maior repercussão das redes
de comunicação gospel, em 2014, seja a saída de Mark Driscoll da mega igreja
Mars Hill e o anuncio do fechamento de todas as suas igrejas “satélites”. O que
me chama atenção é o fato de que o próprio pivô das manchetes já havia deixado
claro que isso tudo um dia aconteceria. Em 2012, Driscoll publicou um artigo
intitulado, The 9 Seasons of a Church’s Life (As 9 Estações da Vida de uma
Igreja), onde apresentou a morte da igreja local como parte natural de seu ciclo
de vida:
Quando uma igreja não é saudável, ela morre.
Uma igreja não é saudável quando não mais experimenta o crescimento por meio da
conversão ou atrai jovens líderes. Neste ponto a igreja enfrenta um dilema
fundamental. Um, ela pode negar a sua morte iminente, vender seus ativos para
prolongar a sua morte, redefinir sua missão a fim de defender-se da sua morte, e
simplesmente sobreviver à medida que de forma lenta e dolorosamente morra e
reescrever os melhores anos de sua história para se sentir importante e bem
sucedida. Dois, ela pode abraçar a sua morte iminente como uma oportunidade para
ressuscitar.[1]
O que as igrejas e líderes eclesiásticos podem
aprender com essa experiência? Existe uma forma de se evitar a queda e o
fechamento de uma igreja local? Quero responder a estas perguntas destacando
duas grandes lições do ocorrido utilizando o próprio ensino de Driscoll.
A primeira lição é que uma igreja ou sua
liderança quando enfermas morrem. A doença que levou a queda de Driscoll, de
acordo com Tim Keller, pastor da Igreja Presbiteriana Redeemer em Nova York,
foi: “… a arrogância e a grosseria nas relações pessoais, que ele mesmo
confessou várias vezes…”.[2]
A própria Mars Hill reconheceu isso ao dizer em
seu web site que: “…o Pastor Mark tem, às vezes, sido culpado de arrogância,
respondendo a conflitos com um temperamento explosivo e fala dura, e liderado a
equipe e os anciãos de uma forma dominadora”.[3] Claro que várias outras
acusações foram feitas em relação ao ministério de Mark Driscoll, porém é obvio
que a raiz de sua queda e consequentemente de sua igreja foi a arrogância, ou
seja, orgulho. O mesmo mal que levou Satanás e Adão a se rebelarem contra Deus e
consequentemente caírem.[4]
A questão é que todos nós somos participantes
da queda, pois somos pecadores, e tão culpados quanto Driscoll, a final de
contas, somos todos orgulhosos, mesmo quando não admitimos isso.[5] Se
perguntarmos, por exemplo, a vários líderes qual é o propósito de seus
ministérios ou de suas igrejas, as respostas certamente serão bíblicas, porém ao
observaremos as suas atitudes chegaremos a conclusão de que estão de forma
orgulhosa colocando toda glória devida a Deus em segundo plano.
Não tem como negar que uma infinidade de
igrejas e pastores evangelizam para aumentar o número de membros e não para ver
mais pessoas refletindo os atributos de Deus. Que discipulam para dominar seus
membros por meio de doutrinas humanas e não para ensinar pessoas a refletirem a
Deus corretamente. Que fazem justiça social para atrair os holofotes para si
mesmos e não para glorificar a Deus por meio de boas ações mesmo que ninguém
venha a ficar sabendo. O resultado deste desvio de propósito ministerial e
eclesiástico é o que faz com que muitos vivam como se o tempo não tivesse um
fim, assim como diz a Bíblia: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para
todo o propósito debaixo do céu. Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de
plantar, e tempo de arrancar o que se plantou.”[6]
A segunda está relacionada ao tempo, pois uma
igreja ou sua liderança fatalmente morrerão um dia. Mars Hill, por exemplo, será
uma das mais de 4.000 igrejas que, segundo as estatisticas, fecham a cada ano
Estados Unidos.[7] O problema é que vários líderes na busca de imortalizarem as
suas igrejas não levam em consideração o ciclo natural da vida. Várias igrejas e
líderes no intuito de prolongarem seus ministérios e a vida de suas igrejas
dedicam tempo e recursos financeiros em suas suntuosas construções ou
ministérios, ao invés de focarem naquilo que Jesus deixou como
comissionamento.
Quando entendemos que somos limitados pelo
tempo e espaço mudamos as nossas perspectivas e atitudes. Passamos a encarar a
vida com um senso de urgência missionário e nos desprendemos das coisas
terrenas. Isso acontence, pois a iminente certeza da morte nos faz repensar
sobre a razão de nossa existência e levanta questionamentos do tipo: o que eu
faria se hoje fosse o meu último dia de vida?
Steve Timmis, atual presidente da Acts 29 (Rede
de plantação de igrejas fundada por Mark Discoll), encara o declínio das igrejas
da seguinte forma:
É fácil, para nós, cristãos, desanimar
quando lemos sobre a diminuição da frequência na igreja ou sobre a secularização
da nossa cultura. Mas nós nos empolgamos com o futuro… A perda de frequência na
igreja se deu em grande parte por causa da saída de cristãos nominais. Como
resultado, o que sobrou pode estar mais sadio. Agora temos a oportunidade de nos
tornarmos comunidades focadas em Jesus e a sua missão.[8]
John Piper diz que: “Nossa missão jamais deve
ser apenas uma missão de ‘venha e veja’. Ela tem de ser missão de ‘Vá e
fale’”.[9] Para Deus são justamente as nossas ações que abrirão a porta do
Espírito Santo e logo determinarão o tempo de vida de nossas igrejas e
ministérios. Para Deus o problema não está no fim da vida de uma congregação,
mas em uma congregação morta ainda que aparentemente viva. As cartas enviadas
para as sete igrejas da Ásia não foram escritas com a promessa de eternidade
para as mesmas, mas um lembrete de que tinham uma missão a cumprir enquanto
vivas.
Espero que Driscoll abrace a aparente morte da
Mars Hill e seu ministério na expectativa de um renascimento tendo em mente que
sem a morte não há ressurreição. Assim como também espero que nós, líderes e
igrejas, não venhamos a ter a arrogante atitude de que somos indestrutíveis, mas
que nossos dias se prolonguem por meio de uma mansa e humilde atitude que vise
somente a glória de Deus.
Notas:
[1]
http://theresurgence.com/2012/06/11/the-9-seasons-of-a-churchs-life
[2]
http://www.nytimes.com/2014/08/23/us/mark-driscoll-is-being-urged-to-leave-mars-hill-church.html?smid=tw-share&_r=2
[3]
https://marshill.com/2014/10/15/pastor-mark-driscolls-resignation
[4] Isaías 14:12-14; Ezequiel 28:12-15
[5] Romanos 3.23
[6] Eclesiastes 3.1,2
[7] WIN Arn, The Pastor’s Manual for Effective
Ministry. Monrovia, CA, Church Growth, 1988, p.16
[8] CHESTER, Tim; TIMMIS, Everyday Church:
Gospel Communities on Mission. Nottingham, UK: IVP, 2011, p.11
[9] Piper, John Evangelização e Missões:
Proclamando o Evangelho para a Alegria das Nações. São José dos Campos: Editora
Fiel, 2011, p. 77

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